Como o racismo afeta os diversos aspectos da vida da mulher negra? Para responder a essa pergunta, a TRT FM recebeu a historiadora, escritora, artista plástica e ativista Cristina Soares. A entrevista é realizada no mês em que se comemora o Dia Internacional da Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, em 21 de março, e o Dia Internacional da Mulher, celebrado dia 8 deste mês.
Confira a entrevista na íntegra no Youtube do TRT/MT
Confira alguns trechos da entrevista:
Como o racismo afeta a vida das mulheres negras?
O racismo afeta as mulheres negras de maneira histórica, porque o lugar em que fomos colocadas foi o de subalternidade. Ficamos abaixo de todos. Fomos colocadas no lugar da invisibilidade, onde não podíamos falar e não éramos vistas. A maior parte dos feminicídios são de mulheres negras.
E no mercado de trabalho, o que você destacaria sobre esse espaço ocupado pela mulher negra?
Historicamente, quando fomos trazidas para o Brasil, as mulheres negras trabalhavam na casa dos outros, como mucamas e amas de leite, isso ainda é visível em muitos aspectos hoje em dia.
Mesmo depois da abolição, o trabalho da mulher negra não mudou tanto. Em uma pesquisa de 2022, vimos que 43% das mulheres negras ainda estão em trabalhos informais, como empregadas domésticas.
Em Cuiabá, temos a Praça da Mãe Preta, onde lembramos de Ana Benedita das Neves, uma mulher que foi ama de leite na década de 50 e 60.
E sobre a conscientização para melhorar esse cenário, o que a sociedade precisa fazer para que o espaço da mulher negra seja mais respeitado?
Eu vejo a educação como a única ferramenta de transformação. A educação igualitária é essencial para mudar esse cenário. A sociedade precisa investir numa educação que não seja eurocêntrica, uma educação que mostre a cultura negra e as contribuições de nossos ancestrais.
Quando eu era criança, não via pessoas negras representadas na TV, nos lugares de destaque. A sociedade precisa disso: representatividade e visibilidade. Quando uma criança se vê representada, ela acredita que pode estar no mesmo lugar. A educação e a comunicação são fundamentais. Precisamos de mais representatividade, tanto na mídia quanto em outros espaços, como no mercado de trabalho.
O que é o letramento racial e por que é importante?
O letramento racial ensina o básico sobre o racismo. Muitas pessoas não percebem que certas palavras são racistas, como “denegrir”, que implica uma associação negativa ao negro. O letramento racial é mostrar a origem dessas palavras e o impacto delas.
O letramento racial também combate o racismo recreativo, que é quando as pessoas dizem que estão brincando, mas, na verdade, estão reproduzindo racismo.
E o que cada cidadão pode fazer para ajudar a construir um mundo com menos racismo e mais oportunidades, especialmente para as mulheres negras?
O racismo foi criado por uma estrutura social branca e, portanto, é fundamental que todos ajudem na construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
Wangari Maathai, uma ativista do Quênia, começou o movimento do Cinturão Verde, plantando árvores para restaurar o meio ambiente. Ela usou esse movimento para enfrentar o machismo e o racismo, e conseguir conscientizar as mulheres do Quênia a se unirem para o bem das futuras gerações.
Precisamos investir na educação, na comunicação e na conscientização para um mundo melhor.
Qual mensagem você gostaria de deixar para as pessoas, especialmente para aquelas que sonham em conquistar seu espaço na sociedade?
A mensagem que eu deixo é que é possível sonhar. Ser negro é algo maravilhoso! Vemos uma ancestralidade muito rica, um continente com muita cultura e sabedoria. A África é matriarcal, e as mulheres negras têm uma força ancestral poderosa. Confiem em vocês mesmos, o mundo é nosso, os espaços são nossos. Acreditem no seu potencial e
saibam que podem planejar e realizar. O futuro é nosso!
(Comunicação Social)

